O primeiro post sobre o Iron War foi para explicar um pouco sobre esta prova do Ironman de 1989. No segundo falei sobre a mais intensa experiência de competitividade que eu tive, que aconteceu em uma prova bem curta. O terceiro post será para falar sobre o principal motivo pelo qual me identifiquei com o livro: como experiências esportivas influenciam a vida cotidiana e vice-versa.
Conforme falei no primeiro post, estudos mostram que o atleta não pára porque acaba com o seu estoque de energia, ele pára por influência do cérebro que em uma situação de stress como esta decide que não quer mais sentir aquele desconforto. A capacidade de uma pessoa suportar o desconforto aparentemente é relacionada à uma área específica do cérebro e estudos com atletas mostram que aqueles que conseguem seguir em frente por mais tempo possuem maior atividade cerebral naquela área.
Especula-se que algumas pessoas como Dave Scott nascem com esta área bem desenvolvida enquanto outros (Mark Allen, Michael Phelps, Lance Armstrong, etc) são altamente influenciados por experiências de vida anteriores e negativas que criam situações em que a pessoa tem que se superar para seguir em frente, para desenvolver esta área do cérebro. No caso específico de Mark Allen, problemas de infância com seu pai e posteriormente as seis derrotas no Ironman foram, segundo ele, fatores determinantes para a sua força mental durante o Iron War.
O interessante para mim foi descobrir que existem diversos atletas profissionais que relacionam problemas na vida cotidiana com esta capacidade de sentir desconforto em uma prova esportiva, e como o treinamento e provas esportivas acabam tendo uma influência na sua capacidade de lidar com problemas na vida.
Mark Allen em uma entrevista falou (aqui vai uma tradução minha): “Se eu não tivesse tido aquelas más experiências anteriores e aprendido como seguir em frente quando as coisas não estavam indo bem, eu não teria vencido os outros seis Ironman. Aquela experiência de ter que me arrastar até a linha de chegada quando existem mil e um motivos para desistir, quando você não sente que vai conseguir mas de alguma maneira consegue, aquilo te dá a perspectiva para sempre ter esperança de que de alguma maneira as coisas vão se voltar ao seu favor. E quando você tem aquilo dentro de si, não interessa o quão ruim as coisas pareçam, sempre existirá uma parte de você que vai continuar a dar o máximo.”
Aí hoje, já pensando neste post, assisti a uma entrevista com o Jenson Button após o GP da China em que ele foi parabenizado pela performance em um triathlon que fez há duas semanas. Na sua resposta ele falou que o triathlon foi muito importante porque ele passou por um desconforto muito maior do que ele passaria na pista e isto o fez chegar mentalmente mais forte e abordar o GP de maneira mais relaxada.
E, finalmente, o motivo pelo qual eu me identifiquei muito com este tema: porque eu considero que a maratona de Londres de 2010 teve um efeito semelhante na minha vida. Três semanas após a prova eu escrevi um post “Reflexões sobre a Maratona” (LINK, ainda no blog ctetha) em que falei que achei que apesar de alguns pontos negativos, a prova tinha sido um excelente treinamento de determinação. A minha frase naquele post foi “a lembrança de uma experiência como esta vem à cabeça quando você se depara com problemas na vida e ela te faz mais forte porque mostra que você é capaz de muito mais do que pensa que é” e eu fiquei surpreso ao ver a semelhança entre o que diversos atletas profissionais falam e o que eu escrevi sobre a minha humilde experiência.
No período daquela maratona a minha vida estava entrando em parafuso e eu lembro de diversos momentos em que me vi pensando que deveria insistir porque em algum momento as coisas virariam ao meu favor. Um momento muito forte foi o dia em que, após já alguns meses insistindo para tentar virar as coisas para uma direção melhor, eu recebi a notícia de que a Lotus Racing não poderia pedir um visto de trabalho para mim e as minhas chances de conseguir a tão sonhada vaga na F1 estava acabando. Eu lembro como se fosse hoje que passei umas duas horas em estado de quase choro pensando que não tinha mais forças para continuar tentando, que tudo estava contra e que desistiria ali. Passadas estas duas horas eu resolvi que não seria assim e dei início a um período de cinco meses de muito “desconforto” para terminar o doutorado em tempo e conseguir o novo visto que me permitiria ficar na F1.
Gonzo resumiu bem no seu comentário sobre o primeiro post: quem já passou por isso não consegue explicar, os que nunca passaram, não conseguem entender. Pra ser sincero eu nunca consegui explicar e até aqui também nunca consegui realmente entender o porquê eu gosto de passar por estas situações de desconforto. Mas estou começando ver um sentido em tudo isso...
domingo, 15 de abril de 2012
Iron War (3)
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Tem uma frase da Cecilia Meireles que diz: " Aprendi com as primaveras a me deixar cortar, pra vir inteira!!! ". Por mais radical que tenha sido a " poda", o broto vem muito mais resistente.....É superar e vir melhor, não vale se amargar!!!!
ResponderExcluirAcho que tambem me identifiquei e gostei da explicação. Conte mais desse livro......beijos, mana Miche.